Meneguzzi Nenhum comentário

“Da janela da minha casa acompanhei seus passos subindo tranquilamente a rua Cremona debaixo de um sol escaldante. Chamou-me a atenção por ser uma idosa. Ela carregava uma sacola de compras em cada mão. Depois de alguns passos, ela parou e num breve instante trocou as sacolas de compras de mãos (a que estava na direita passa para esquerda e vice-versa). Fez o que várias vezes cada um de nós faz quando carregamos coisas pesadas. Depois de fazer a troca, a idosa seguiu vagarosamente o seu caminho.

A idosa parou um instante e, nessa breve parada, trocou os volumes de mãos. Aparentemente, nada se alterou, pois, o peso das sacolas e a dificuldade em carrega-las mantiveram-se no limite em que estavam. Nem ela poderia fazer muito mais, se pretendia levar aquela tarefa até o fim. Mas fiquei pensando: no instante em que suas mãos deixaram de estar ocupadas, readquiriram leveza, procuraram outros equilíbrios, porventura mais criativos. Na verdade, nada se alterou. Entretanto, para aquela que recomeça o caminho, tudo é diferente.

Pode parecer uma análise pequena, de um instante muito simples, mas se tivesse que dar um nome, arriscaria de “ O instante de trocar as mãos” É claro que não são as mãos que se trocam. A esquerda não passará a ser direita. O que se troca é, claramente, o que as mãos seguram. Quando trocamos o peso que as mãos sustentam na viagem, concedemos às mãos exaustas a possibilidade de reinventar estratégias que lhes permitam persistir, e criamos assim, a oportunidade para que se reencontrem. As mãos exaustas serão, por isso, serão as mesmas e também outras.

Talvez valorizemos pouco o “instante de trocar de mãos”, mas é graças a ele que aquela senhora, quando sentiu que lhe faltavam as forças, conseguiu levar para casa aquilo que precisava. Muitas vezes, onipotentes que somos, apressados e desatentos aos sinais que vida nos manda insistentemente, não observamos que em determinados momentos precisamos apenas parar, ajeitar as coisas, respirar um pouco, aceitar as próprias limitações, trocar as sacolas de mãos, e prosseguir, mesmo que vagarosamente. Não há quem não sinta, em determinado momento da vida, que a porção ou a forma de existência que lhe coube é demasiado pesada para as forças que tem; que é capaz com facilidade de realizar umas coisas e outras não; que precisa de instantes para se refazer. Sempre haverá um momento em que levantamos a cabeça, colocamo-nos de pé, sacudimos as pernas, propomos uma trégua, uma pausa, por pequena que seja, para respirar novo ar. Parar, às vezes, torna-se uma exigência, se quisermos progredir com a vitalidade necessária. Tem dias, que parece que tudo está bem, mas o fardo é grande. É preciso apenas parar, e trocar as sacolas de mãos. E continuar a caminhada, com a força e as condições que temos.”

Inspirado pelo livro A mística do instante – O tempo e a promessa, de José Tolentino Mendonça. 

Artigo publicado no Jornal Lourdes, setembro de 2017 e que faz muito sentido para esta semana que vamos iniciar.

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